Gerar e educar um filho é uma dádiva. Por mais laboroso que seja, tende também a ser uma experiência de encantamento e, ao mesmo tempo, de coragem. Encantamento por se tratar de uma descoberta constante e coragem porque, muitas vezes, pode significar um encontro consigo mesmo. Dificilmente se encontrará entre os que são pais, mães e educadores alguém que, na missão de conduzir uma criança no caminho de maturidade, não tenha crescido individualmente no autoconhecimento.

Ao tocar na experiência do “não”, no “contrariar” a vontade do filho, existe um caminho imprescindível – que faz parte da experiência humana – de educação da vontade e formação dos valores. E isso passa necessariamente pela vida de quem educa. Mas como dizer não ao meu filho? E por que?

A Declaração Gravissimum Educationis – Sobre a Educação Cristã, do Concílio Vaticano II, lembra que essa missão da educação – que envolve diretamente levar os filhos ao discernimento do que se pode e não se pode fazer – é prioritariamente da família e que se trata de um “grave dever”. “A família é, pois, a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade”. (GE, 3)

Ao nos perguntarmos sobre bons motivos para dizer “não” aos filhos, nenhum pai ou mãe, em perfeito juízo, faria isso apenas pelo prazer de fazer o filho sofrer ou criaria situações para “dizer não”. A necessidade do “não” é natural, basta ter atenção ao desenvolvimento das crianças.

Os limites tornam as crianças mais seguras

Na esfera emocional, afetiva e física, apresentar limites às crianças é algo que as torna mais seguras. Ao observar o desenvolvimento humano, é inegável identificar que, desde recém-nascidos, quando os bebês são expostos constantemente a mudanças de rotina, podem apresentar comportamentos diferentes e até negativos. A palavra “rotina” deveria ser a primeira noção de limites que as crianças deveriam receber.

Prever o que vai acontecer, sobretudo quando se trata de hábitos básicos – alimentação, higiene e sono – torna as crianças mais dóceis para responder positivamente aos comandos dos pais e cuidadores.

Diga “não” e colabore na formação do caráter dos seus filhos

“A família ajuda a que as pessoas desenvolvam alguns valores fundamentais que são imprescindíveis para formar cidadãos livres, honestos e responsáveis, por exemplo, a verdade, a justiça, a solidariedade, a ajuda ao necessitado, o amor aos outros por si mesmos, a tolerância etc” (Catequeses preparatórias para o IV Encontro Mundial das Famílias)

Algumas linhas de pesquisa afirmam que somente a partir dos 7 anos é que a pessoa chega à “idade da razão”. Essa idade coincide também ao tempo de formação quase completa do cérebro humano, que é finalizada quando se chega aos 8 anos. Significa que não se pode dizer “não” – esperando que a criança compreenda – até essa idade? É evidente que não.

Como falamos anteriormente, desde cedo, respeitando as necessidades de cada um, é possível estabelecer limites progressivos nos hábitos básicos, mas também na conduta social.

De 0 a 4 anos, a repetição de comandos, sem muitas explicações e “sermões”, podem ser muito úteis. É como se formássemos um código de conduta e comportamento, sustentado pelo afeto, o contato físico, a firmeza e a ternura. É nessa fase que a criança tem formados os principais vínculos de confiança e amor, vínculos que ela levará para o resto da vida.

A partir daí, ou um pouco antes, já se pode conversar mais, explicar mais, até porque a própria criança já demanda os porquês de tudo. É, sobretudo, nessa etapa que podemos explorar a experiência da caridade, da partilha e do senso de dignidade – onde podemos ensinar a criança a dizer não também, pois ela precisa aprender o que é privado, íntimo, a “não falar com estranhos” ou aceitar comportamentos abusivos.

Ao chegar na “idade da razão”, é possível que se perceba muitas mudanças de comportamento. Nas vontades, preferências, necessidade de fortalecer a individualidade, e, claro, nas escolhas. É muito importante que os pais e educadores acompanhem de perto esse período, pois trata-se de um marco importante no desenvolvimento humano.

Já, aos 9 anos é a idade aproximada na qual a criança compreende a linguagem subjetiva, as metáforas, as “lições de moral” retiradas de outros contextos.

Saber desses marcos no desenvolvimento não deve reprimir nossa postura na educação moral e transmissão de valores, mas, ao contrário, pode iluminar na forma como se pretende fazer isso. Então, vale a pena estar atento.

Apoie-se na graça de Deus

Talvez as tragédias atuais, as guerras, o avanço de algumas ideologias, tudo isso assusta a muitos pais e faça com que a auto-confiança e o reconhecimento da graça de Deus no exercício da missão de educar seja, dia a dia, minada. Há muitos que se fecham à geração de filhos porque se sentem incapazes de viver a experiência de educar.

Mais importante do que buscar informação de qualidade, ler muitos livros, seguir teorias e métodos – ou seja, buscar fora de nós –, é preciso acolher com serenidade e humildade que, dia a dia, o Senhor dará a força necessária.

Conscientes do apoio da graça, torna-se fundamental investir tempo e esforço para cultivar a vida espiritual dentro de casa, buscar rezar pelos pelos filhos e com eles.

Seja criativo, encontre meios para conviver, conhecer, brincar e estar com suas crianças. Confie nas inspirações que Deus te dá e não se deixe abalar com as dificuldades.

“Fiel é aquele que vos chama, e o cumprirá” – ITes 5,24

 

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