Infância e tecnologia: os perigos do exagero

Quem nunca viu crianças e até bebês absortos diante de tablets ou smartphones? Na busca de alguns momentos de sossego ou para dar conta da rotina apertada à qual são submetidos, pais, mães e cuidadores acabam por recorrer ao recurso da tecnologia para entreter as crianças. Porém, todo benefício poder ter um custo, e quando se trata infância e tecnologia, o excesso pode representar perigo.

Para esclarecer sobre esse tema, procuramos a psicóloga Patrícia Vale, do Colégio Everest – Brasília. A profissional enfatizou a necessidade de monitoramento e sobriedade na exposição das crianças à tecnologia. Confira a entrevista.

1. É comum que as crianças hoje em dia tenham contato com a tecnologia logo cedo. Existe alguma consequência prática na vida delas diante de um acesso ilimitado e sem supervisão à tecnologia?

Patrícia – Hoje em dia, a tecnologia está inserida na vida de nossas crianças desde o seu nascimento quando são filmadas e fotografadas logo na sala de parto. Em poucos segundos, sua primeira foto já está nas redes sociais dos pais e familiares. Não podemos negar sua existência ou fingir que a tecnologia não pertence ao nosso mundo. Porém, existe uma grande diferença entre ensinar sobre sua importância e permitir que ela tome conta de sua família e dos momentos de ócio de nossas crianças. Uma criança que tem acesso ilimitado à tecnologia pode vir a ser uma criança alienada socialmente, viciada em estímulos visuais e com alto grau de ansiedade diante do ócio.

2. Existem danos no aprendizado das crianças e adolescentes que são “dependentes” das tecnologias – para se acalmar, por exemplo? Há casos de crianças que só param de chorar quando os pais colocam o tablet para sua distração?

Patrícia – Claro. Todos nós temos comportamentos aprendidos. Nascemos sem saber como devemos nos comportar em qualquer situação da vida, e quando bebês, vamos testando as melhores estratégias para conseguirmos alcançar determinados prazeres. A estimulação visual é, sem dúvida, um grande prazer para a criança. Afinal, são movimentos, cores e sons, tudo acontecendo ao mesmo tempo e se modificando a cada segundo. Se uma criança percebe que, para conseguir aquele conteúdo, ela precisa chorar, ela chorará sempre. E aos poucos internalizaremos naquela mente que o choro trará o benefício daquele estímulo que nenhuma brincadeira simples conseguirá trazer. Esse choro ficará cada vez mais intenso, esse pai cada vez mais sem saída e essa criança cada vez mais dependente daquela estimulação que só é oferecida por aquele tipo de “brinquedo”, o smartphone, o tablet ou a TV.

3. Como o colégio Everest lida com o uso de tecnologias dentro do ambiente escolar?

Patrícia – O Everest acredita na importância da tecnologia para nossas crianças, pois sem ela nossos alunos ficariam distantes de uma realidade atual. E nós sabemos que quando bem utilizada, ela tende a ajudar. A tecnologia leva nossos alunos a mundos que eles não poderiam chegar sem sua existência. A criatividade é estimulada quando eles podem participar de uma simulação diferente ao aprender um conteúdo novo. É claro que a fixação de um conteúdo, quando apresentado de uma forma divertida com recursos tecnológicos, ajudará muito nossos alunos. Porém acreditamos também que existe um limite, e que nossos alunos precisam aprender a se comportar em momentos onde a concentração acontecerá em ambientes sem estímulo visual. Eles aprendem que podem e conseguem ficar 8 horas na escola socializando e estudando sem precisar checar a cada 5 minutos se receberam uma mensagem.  

4. Pesquisas afirmam um déficit de atenção e desenvolvimento na educação de crianças que vivem mergulhados nas tecnologias. Se percebe isso na sala de aula? A partir de quais atitudes?

Patrícia – Se conversarmos com algum psiquiatra infantil, ele dirá que a maior demanda que se tem atualmente, em consultório, são crianças e adolescentes viciados em tecnologia. É uma triste realidade. Na verdade esse vício só é percebido e leva os pais a buscarem ajuda quando algumas comorbidades aparecem, como Depressão, Ansiedade Social, Síndrome do Pânico, entre outros.

Em sala de aula podemos ficar atentos a crianças muito dispersas, alienadas, não participativas, com comportamentos antissociais, queda brusca de rendimento, dificuldade de socialização. É claro que esses comportamentos também podem estar ligados a outras questões, porém também são indícios de uma criança com dependência tecnológica.

5. Qual a justa medida entre educar para a tecnologia e com tecnologia e os danos que ela pode causar?

Patrícia – É necessário um limite de tempo por dia para cada faixa etária. A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria atestam que bebês na idade entre 0 a 2 anos não devem ter qualquer exposição à tecnologia, crianças de 3-5 anos devem ter acesso restrito a uma hora por dia e crianças de 6-18 anos devem ter acesso restrito a 2 horas por dia (Fonte: AAP 2001/13 , o CPS 2010). É claro que isso não é regra e como para tudo é importante sempre um bom senso. O uso exagerado da tecnologia pode causar vários prejuízos como já citados anteriormente, entre eles, Insônia, Depressão, Ansiedade generalizada, Transtorno do Controle de Impulsos, Síndrome do Pânico, Transtorno antissocial.

6. Na metodologia Everest, em qual nível os alunos têm contato com aparelhos tecnológicos?

No Colégio Everest, além de respeitarmos as recomendações de exposição limitada a partir de 2 anos de idade, a tecnologia tem papel educativo e é utilizada em situações previstas em planejamento, variando de acordo com a idade e o desenvolvimento de cada criança. Além de desenvolver habilidades funcionais, em algum momento da vida escolar, as crianças têm incluídas no currículo aulas de robótica.

Todas as unidades contam, também, com o suporte da ferramenta Google for Education, que serve de apoio no estudo das disciplinas e permite um contato produtivo e eficiente da tecnologia a favor da educação.

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